terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Um pouco mais de azul.

 
 
 
 
“Vamos fazer nove horas de carro para ir a um cemitério, tens noção.” Vamos, mas de passagem temos 2 cidades, 2 castelos, 1 salina e 8 igrejas. “Não dá para tudo. Temos de escolher.”

 
De Bucareste ao Merry Cemetery (já lá chegamos, daqui a 9 horas e 24 minutos ou 583km), quase ali na fronteira com a Ucrânia, há um cemitério que é um "feito humano incrível". De caminho há realmente muito para ver, e o programa revela-se "tens razão", demasiado optimista, apesar de os dias serem mais do que o habitual. Ao todo, 11 dias. Para dedicar ao norte da Roménia e voltar, 6. No caminho, em Constanța, o Mar Negro está azul, na cidade Brasov, o mítico Castelo de Bran, do séc. XIII, o “do Drácula”, aguardará pelo nosso regresso, também o Castelo de Pelles, bem como Sighişoara, uma das cidades mais medievais da medievalidade (ou medi-evil-idade), pensando no “aqui nasceu” Vlad Tepes, mais conhecido pelo Empalador, filho de Vlad II Dracul (parêntesis aberto para dizer que Vlad era chamado de Draculea, que significa “filho do Dragão”, ordem a que pertencia o pai. Dracul, do latim draco, significa diabo em romeno, mais do que justificadamente se analisadas as formas de tortura inventadas por Vlad Tepes ao longo da sua vida: foram 45 anos, sendo que aos 17 já tinha domínio sobre terras da Valáquia).

 
Entre a Transilvânia e a região mais a norte, de Maramures, um rewind aos anos 80 do interior de Portugal, sem tantas rotundas e quase nenhum multibanco, casas à beira da estrada mas com porta sempre na lateral, mulheres de lenço à cabeça, igrejas pontiagudas aos pares, muitas passagens de nível e cavalos vestidos com muito nível também (com mantas bordadas, que belos casacos dariam ou não me chamasse Graça Maria).


A expectativa estava posta em Bârsana, Budești, Desești, Ieud, Plopiș, Poienile Izei, Rogoz e Șurdești, igrejas património da Unesco. E não, quem vê uma não vê todas. De madeira por fora, altas, elegantes, entramos em Bârsana como quem visita uma igreja pela primeira vez. Por fora, de cor e materiais quase estranhos para a região (pareciam colmo ao longe).
 

Por dentro, um rés-do-chão onde o dourado ortodoxo não teve mãos artísticas a medir; uma surpresa no segundo andar, onde as portas são mantidas fechadas para protecção das cores. Aqui, os ocres-terra substituem os dourados, e é muito difícil manter a visão sossegada, tal é a incredulidade do traço, da profusão quase em estilo banda desenhada, das histórias que avançam e recuam. Esta data de 1720 e a Unesco escreve o seguinte "Estas oito igrejas são exemplos notáveis de uma variedade de soluções arquitectónicas de diferentes períodos e áreas. Mostram a variedade de “design and craftsmanship” adoptados nestas construções de madeira estreitas e altas, com as suas torres de relógio finas, simples ou duplas, e cobertas de telha, na extremidade ocidental da construção. Como tal, elas são uma expressão particular da paisagem cultural desta região montanhosa do norte da Roménia.” Soa-me a arrepio de ridículo tudo o que possa dizer sobre isto.

 
Temos hora e meia antes do sol se pôr. O Cimitirului Vesel (Cemitério Alegre) era ainda uma descrição meio surreal acompanhada por algumas fotos tripadviserianas vistas com pouca rede. Porém, mesmo ao longe e com miopia, indesmentível o “Merry”. Vou passar aos factos para não tornar a história num Centrum de adjectivos. Săpânţa é uma terra com cerca de 3500 almas, 10 das quais morrem por ano. Neste cemitério onde quem partiu "fala" na primeira pessoa, as lápides representam a vida, contam a história através de imagens coloridas e frases poéticas, francas ou bem- humoradas, que quem canta, seus males Săpânţa. Tudo começou assim: morre alguém e comenta-se o falecido nas suas virtudes ou excessos. Em 1935, o senhor Stan Ioan Patras lembrou-se de “passar a limpo” o que ouvia, unindo a arte de esculpir e pintar madeira ao talento de versejar, fazendo perdurar uma imagem do falecido (e ao mesmo tempo, a madeira era uma forma alternativa à fotografia, para quem não tinha possibilidades de a ela recorrer). Ao longo de sua vida, fez o “happytáfio” de muitas centenas de habitantes de Săpânţa, com pedidos das famílias para que descrevesse o que o parente querido fazia em vida ou quais as circunstâncias da sua morte. O Sr. Patras não recebeu, li, queixas dos familiares sobre uma papada mais acentuada ou um olho mais olheirento, mas havia que caprichar, isso sim, nos versos, que a vida do meu ente não pode ser igual à do teu.
 

Patras morreu em 1977 (não sem ter feito antes a sua própria cruz). O testemunho passou para Dumitru Pop que, pelo menos até ontem, continua a tradição. Digo “até ontem” porque ainda ontem entrei em contacto com ele.

 
Esta homenagem prestada a cada habitante concretiza-se apenas aqui (não passou para o resto do país). Tudo é, aparentemente, até onde fui capaz de perceber, encomendado: das cores, o fundo azul brilhante, o “Săpânţa bleu” quer dizer a esperança e a liberdade que se funde com o céu; o preto indicia uma morte inesperada; uma cruz com maior predominância de vermelho diz-nos que aquela pessoa tinha paixão pela vida; amarelo indica que há muita descendência. Ainda estou a apurar estes significados e quando tiver novidades coloridas, actualizo (aguardo três livros sobre o tema). A parte dos versos estava igualmente a causar grande curiosidade. O que se dirá sobre aquele pastor, aquela professora, o homem que morreu com tiros de espingarda, o mecânico (ou talvez um acidente de carro?), a padeira e a tecelã?

 
Há palavras que são primas afastadas da nossa língua, outras do italiano e do francês. O sol põe-se, e o cemitério de Săpânţa, tal como as estradas que nos conduziram até lá, não tem luz artificial, mas venho radiante, sensação estranha para quem sai de um cemitério. 

 
A própria igreja é azul, azul que vai sendo retocado para não deixar nunca de se fundir com o céu. Para que não deixemos nunca de olhar o céu.

 

 
Graça Maria Martins

 
 
 

















Barsana






Caminho para Maramures


Castelo de Bran

Constanta


Mar Negro































Sapanta - Cemitério